Vai um cafezinho?

domingo, 27 de março de 2011

Douro Capitulo final
Depois de vários meses de uma dura batalha judicial, finalmente uma sentença era lida em público pelo juiz, na presença dos réus, dos Srs. Jurados, das testemunhas, dos familiares, dos amigos e dos acompanhantes do intrigante caso.

- Sendo assim Co-réu Francisca Magalhães Matias e Carlos Francisco Mendes Carvalho são condenados por pena de 28 anos e 8 meses de reclusão, pela prática do crime de homicídio contra Joana Pinto Magalhães e João Manuel Campos Fonseca, triplamente qualificado, tal como previsto no art. 132º e art. 71º do Código Penal, a ser cumprida inicialmente em regime prisional FECHADO, sem direito a “sursis”. Também são condenados por pena de 3 anos pela prática do homicídio de forma tentada contra Alexandre Pinto Magalhães previsto no Artigo 132º e art. 23º do Código Penal. Mais a agravante ao qual também acusados são igualmente condenados por pena de 8 meses prisão, pela prática do crime de burla processual qualificada, tal como previsto no art. 217º, a ser cumprida inicialmente em regime prisional FECHADO, sem direito a “sursis” e multa, em seu valor unitário máximo.

Todos que ali que se encontravam aplaudiram a decisão. Aquela batalha terminava ali naquele tribunal, a justiça estava feita. Uma longa investigação estava agora a decorrer a redor do escândalo do tráfico de crianças mas poucas eram as esperanças que tudo pudesse terminar em justiça, o dinheiro muitas das vezes compra o silêncio de muitos… Mas algo faltava naquele momento para tudo ser perfeito, faltava Alexandre.

 
As vozes distorcidas e as várias misturas de sombras despertavam os sentidos de Alexandre. Encontrava-se numa cama minúscula rodeado de máquinas num quarto branco e ruidoso.

- Senhora enfermeira, ele acordou! – Gritava uma voz ansiosa.

Á medida que gritava aquela agoniante voz. Uma mão acariciava os seus cabelos sedosos enquanto uma outra voz harmoniosa dizia-lhe ao ouvido.
 
- Vai tudo correr bem!
 
Os seus olhos por completo se abriram, estes viram Raul e o Senhor Barros completamente ansiosos, mas algo faltava ali naquele estranho quarto. Depois de uma breve procura daquela harmoniosa voz encontrou Patrícia radiante, com um pequeno e adorável ser nos seus braços. O que significava aquilo? A sua mente ainda meia atordoada perguntava a si própria, tudo isto reflectia no seu olhar mas, rapidamente Patrícia o acalmou dizendo.

- Acorda meu amor o pesadelo acabou! Agora vamos ser felizes os três, eu, tu e o teu filho.
 
FIM

Vai um cafezinho?

terça-feira, 22 de março de 2011


Douro Capitulo 9
Os sinos faziam se ouvir, onze badaladas, a lua iluminava-o enquanto caminhava em direcção à porta. A fúria envolvia-o, agarrado a inseguranças e preso a certezas. Tocou centenas de vezes a campainha, não ouvia ninguém.

- Quem é? – Respondia uma voz trémula.

- Alexandre Magalhães!

A porta de carvalho abria-se e por detrás dela encontrava-se a sua prima com uma combinação de dormir antiga.

- Primo que surpresa! – Dizia ela desprevenida, não era suposto ele a ver ali - Olha se queres falar com o Sr. Presidente é melhor vires em outra altura ele está a dormir.

Sem espanto de a ver Alex empurra-a demovido pela raiva, sobe o enorme lance de escadas com uma grande agilidade. Pelo que a memória lhe dizia a porta do seu quarto era a última do corredor direito, aquela casa era enorme e tão confusa! Nunca um corredor parecia tão comprido, o seu ressonar começava a ouvir antes de chegar á porta. Com um pontapé abriu a porta e com isto o Presidente acordou sobressaltado.

- O que é isto?! – Saia da cama a tentar chegar-se a gaveta da sua mesinha cabeceira.

- O que é isto? Isso pergunto eu?! – Aproxima-se intimidatoriamente.

- Primoooo, tem calma! O que se passa contigo.

- Vocês são mesmo uns porcos, como conseguem dormir? Porque é que mataram os meus pais, seus nojentos. – Mantinha uma postura agressiva e rígida.

- O que estás para aí a dizer? Miudinho tem calminha, sim! Vai para casa, o vinho fez-te mal!

- Miudinho o que pensas que és para me chamares miudinho?

- Primo vai para casa!

- Cala-te cabra! Eu tenho as provas como vocês tão envolvidos nisto!
Um olhar cúmplice fez-se entre aqueles dois sujeitos e as suas posturas mudaram!

- Não achas que foste longe de mais Alex?! – Um tom agressivo fez-se ouvir da boca de Francisca.

- Não, eu devia matar os dois… Mas prefiro vê-los apodrecer na prisão!
Ao virar as costas ouve um gatilho, o seu corpo congelou, aquele som era intimidador. A sua pele arrepiou.

- Volta-te seu imbecil! – Ordenava o Presidente.

Quando se voltou para a frente deparou-se com a mesma arma que tinha tentado mata-lo precedentemente. Um riso nervoso fez-se ouvir.

- Alex, Alex quem te manda ser tão impulsivo! Sabes que a curiosidade matou o gato?! Tal como a tua mamã!?

Ditas aquelas provocativas palavras, uma crescente revolta fez Alexandre ganhar coragem, lançou-se em direcção ao presidente com intenção de se salvar! Naquela luta desesperante tentou retirar-lhe a arma, lutava pela sua sobrevivência. Os gritos histéricos de Francisca fazia-se ouvir como barulho de fundo, ao fim de cinco minutos todo aquele esforço pouco lhe valeu, no meio daquela agitação toda uma bala perdida perfurou o corpo de Alexandre que depressa perdeu os sentidos.

- Matamos o miúdo e agora? – Francisca punha as mãos em cima da cabeça desesperada.

- Agora! Agora temos menos um problema, vamos deita-lo ao rio, aí ninguém vai encontra-lo.

Depressa enrolaram-no num lençol de cetim roxo, arrastaram-no ao longo daquele chão de madeira envernizada. Nas escadas forradas com uma carpete vermelha pegaram nele para não deixar rastos de sangue naquele enfadonho material era enormes e penosos degraus. Os quadros familiares que nas paredes estavam pareciam chorar envergonhados com aquele cenário triste. Aquela casa fria composta por pedra de xisto era deixada para trás numa carrinha. O silêncio permanecia no carro, o suposto cadáver encontrava-se por entre os bancos. Com as luzes no mínimo, para não dar nas vistas, encaminhava-se para o rio. As curvas pareciam mais apertadas, o vento parecia chorar, as estrelas e a lua iluminavam timidamente a estrada. Depois de uma demorada viagem chegaram ao destino, um terreno abandonado junto ao brilhante rio. Decidiram por fim retirar o corpo e a arma do crime.
Uma luz forte encadeou aquela acção incriminatória e uma voz rouca se vês ouvir:

- Alto! Estão detidos… - Dizia o agente da Policia Judiciaria.

Continua...

Vai um cafezinho?

quinta-feira, 17 de março de 2011

Douro Capitulo 8
Os últimos raios de sol batiam nas grandes muralhas que demoraram 30 anos para se erguer, o vento cantava á medida que passava pelas 15 torres, todas aquelas pedras tinham visto muito sofrimento e também muitas gerações a passar por elas. Eram 19h, lá estava ele á frente da Porta do sol com os seus óculos de sol, de camisa preta, estilo militar, com os braços morenos cruzados á espera do antigo inspector.

- Boa tarde, desculpe o atraso. – Cumprimentava o detective com uma mão forte.

- Não há problema, então como está?

Depois de todas aquela cortesia, dirigiram-se para o café mais próximo. O Senhor Barros tirou da sua pasta negra um enorme envelope, cheio de fotografias e relatórios. Depois de lhe mostrar toda aquela imensidão de informação. Tudo ficou muito confuso.

- Espere ai Sr. Barros não estou a perceber, o que é que o meu pai tem a ver com isto? Ele já morreu.

- E depois de ele morrer ele tinha uma herança, certo? Aqui está o documento – dá-lhe o papel para a mão.

- Hum estou a ver mas o que tem a herança de mal? Herdei a casa onde vivo e uma conta recheada.

- E pelo que vi, você quer fazer obras para fazer negócio?

- Sim, sim! Sinto-me sozinho naquela casa rodeado de recordações e onde parte delas não são boas? E aquela casa é boa para o tipo de negócio que eu idealizei. Mas agora com esta confusão vai ser difícil.

- Você lembra-se do dia em que morreu o seu pai?

- Mais ou menos, sim, era miúdo ainda, mas o que é que isso tem a ver com a minha situação.

- Lamento dizer-lhe isto mas tudo está ligado.

- O quê? Como é que isso é possível?

- Pode-me dizer o que viu no dia da morte do seu pai? O seu pai esteve em África pouco antes da sua morte não é verdade?

- Sim é verdade. O meu pai e eu éramos muito ligados. Ele nos últimos dois anos que teve em vida ia muitas vezes a África, ele dizia que fazia parte do seu trabalho, mas nunca percebia!

- A sua mãe morreu quando?

-Pouco antes do meu pai. Foi muito duro para mim! Morreu devido a um acidente de trabalho. Mas não me lembro. Desde aí todos os fins-de-semana o meu pai levava-me a passear junto ao ribeiro para me compensar a sua ausência. Num desses passeios o meu pai viu um senhor e ficou apático, mandou-me ir comprar um gelado e eu fui mas quando regressei até ele… - Engoliu em seco, era uma recordação dura, era como o sufocasse.

- O que tinha o seu pai? – Apressou-se o detective.

- Estava morto! – Uma lágrima caia-lhe no rosto.

- Sabia que o seu pai estava a ser ameaçado constantemente?

- Eu? Não senhor Barros. Era criança não tinha a noção de nada disso.

- A sua mãe não teve um acidente de trabalho!

- Como assim? O que está a insinuar com isso?

-Infelizmente, eu não estou a insinuar. A sua mãe foi assassinada, foi uma espécie de ameaça.

- Não estou a acreditar nisto?! Você tem a certeza disto?

- Tenho e tal como a sua mãe, o seu pai também foi assassinado. Já falei com antigos colegas meus para abrirem este caso em tribunal. Isto é grave. O seu pai estava metido com gente da alta em negócios ilícitos.

- Como é que isso é possível? Estava metido em que afinal?

- Tráfico de crianças. Ele era um intermediário, transportava-as e vendi-as para casais de grandes posses. Tudo corria bem até o seu pai se cansar e decidir parar com o contrabando. – Bebeu um copo de rajada e continuo com a horripilante informação - O que se passou na sua cave foi para o demover com as obras. Em sua casa estão escondidas as provas do tráfico e lá, estão os nomes de todos os envolvidos. Era essa a prova que eles queriam tirar do seu pai e por isso ameaçavam-no.

- Não acredito nisto, como é que ele foi capaz de me fazer isto? E porque mataram o João Fonseca?

- Ah isso é simples de explicar ele estava metido nisto e quando se preparava para te contar parece que alguém agiu primeiro. Ele deixou tudo isto escrito no computador do seu filho, no caso de lhe acontecer alguma coisa.

- Estou chocado com tudo isto é muita informação num dia só?! Quem foram os filhos da puta que mataram a minha mãe? – A raiva sentia-se em cada palavra que dizia.

- Tem calma isto é um caso muito delicado.

- Quem? Quem mandou mata-la? De certeza que os finórios não iam sujar as suas manápulas de sangue!

- Não irias gostar de saber! – Dizia isto a olhar para o seu bloco de notas, para tentar não enfrentar aquele olhar de revolta.

Alexandre tira-lhe o bloco da mão e puxou-lhe o colarinho.

- Diz-me fodasse quem é! Olha para mim!!

- A tua prima Francisca a mando do seu amante o Presidente da Câmara.

Aqueles dois nomes fizeram-no levantar da mesa de pedra, começou a correr até o carro, queria justiça. A raiva cegava-o… O carro seguia em altas velocidades, dirigia-se para a casa do Sr. Presidente. Como é que isto era possível? A sua prima, que tinha sido sempre tão sua amiga. Agora fazia sentido, aquela voz feminina e aquele cheiro, ela queria-o debaixo de olho.

Continua...

Vai um cafezinho?

terça-feira, 15 de março de 2011

Douro Capitulo 7 
Era Maio, a paisagem estava diferente, os cheiros eram mais fortes, o vento fresco que por ali passava acarinhava de forma delicada as plantas que agora mostravam o seu esplendor. As cores misturavam-se entre o verde, o roxo, o branco e o amarelo, tudo aquilo era deslumbrante. O rio sorria com um brilho incandescente, as suas águas corriam de forma abundante, orgulhando-se de trazer vida e tamanha beleza. As borboletas voavam no céu azul, as aves migratórias faziam se ouvir, era a euforia da primavera! Todos que por ali passavam paravam para contemplar todo aquele cenário.

O hotel rural estava agora cheio de residentes, maioritariamente de estrangeiros vindos da Inglaterra. Tudo estava muito animado, cheio de movimento e de trabalho, era como se fosse a época alta. Os casais apaixonados que por rústicos corredores passavam mostravam como felizes estavam, o espírito primaveril espalhava-se ao longo daquela casa brasonada. As crianças aventureiras já experimentavam a piscina sempre num rebuliço de sensações e emoções enquanto os pais experimentavam o bom vinho português na adega que continha enormes pipas de 3 metros de altura, denominados na região como tonéis, que surpreendiam os visitantes pela sua enorme estrutura e capacidade de conservação de um excelente vinho.

- Chefinho como correu a reunião com os fornecedores?

- Correu bem Maria, correu bem! – Sorria todo convencido.

- Olhe que tenho umas cartinhas para si e uma delas é da Senhora Patrícia. – Maria fazia um riso malicioso e provocativo.

- Dê-me cá Sra. Maria Bastos. – Esticava os braços com entusiasmo como se fosse uma criancinha a receber uma prenda de natal.

- Não sei se dou chefinho. – Ria-se. – Ah é verdade tem aqui outra carta mas sem remetente. – Disse já com um ar sério entregando-lhe as cartas.

- Hum curioso, bem vou vê-las no escritório, qualquer coisa liga-me.

Em seu escritório rasgava o envelope com alguma curiosidade, ao abrir a folha A4 deparou-se com uma só linha escrita a computador.

“Não me esqueci de si. Preparasse!”

Ao ler isto sentiu um aperto no peito, já tinha passado sete meses desde aquele pesadelo. Teria isto um fim? Ligou ao detective Barros, senhor de 56 anos antigo inspector da PJ conhecido pela sua competência sendo este o motivo para o contratar á 3 meses, tinha que pô-lo ao corrente da novidade.

- Senhor Barros é o Alexandre Magalhães tenho uma novidade para si!

- Bom tarde Alexandre, e eu tenho imensas informações que por ventura são bastante interessantes. O que lhe parece encontrarmo-nos na porta do Sol do Castelo de Bragança às 19 horas?

- Parece-me bem, então lá estarei.

Continua...

Vai um cafezinho?

domingo, 13 de março de 2011

Douro Capitulo 6 
- Sendo assim de acordo com as regras constitucionais e leis criadas pelo poder legislativo de Portugal o arguido Alexandre Pinto Magalhães é considerado inocente! Declaro encerrada a audiência. – Erguia-se o juiz com ar arrogante.

Aquelas palavras deram a Alexandre o maior alívio. O seu nome estava limpo, ele estava realmente inocente, mas mesmo assim algo não lhe saia da cabeça, quem é que tentou mata-lo e porque é que tentou?

Ao sair da sala de audiências Raul convidou-o para um almoço, mas Alex recusou preferindo ir para casa descansar.

«Nada bate certo porque seria tudo isto? Quem matou o João Fonseca? Mas porquê em minha casa?» Á medida que bebia o seu uísque tudo isto girava na sua cabeça, estava dar com ele em doido, tinha que tirar tudo isto a limpo, mas como? Mais uma vez algo paralisa os seus pensamentos mas desta vez foi uma campainha inesperada e estridente, ao abrir a porta um grande decote destacou-se de um elegante fato preto, era Patrícia com uma garrafa na mão.

- Então vamos beber um copo? – Entra sem pedir autorização de maneira provocatória.

- Eu pensava que a senhora só bebia chazinho? – Fecha a porta com um sorriso brejeiro. – O que estás a fazer? – Perguntava impressionado ao vê-la a despir o seu top ficando apenas de calças.

- A adiantar trabalho, tenho saudades tuas!!

Aquelas palavras mágicas fizeram-no despertar, aquele corpo era apetecível quase impossível negá-lo. Os seus braços rodearam a cintura dela enquanto havia uma troca de saliva de línguas entusiasmadas, os seus corpos roçavam-se cada vez mais. As suas mãos exploravam a cada curva, parecia que tinham sido feitas á medida dele. Ela tirava fogosamente os botões da camisa de Alex acabando mesmo por arranca-los isto com a ânsia de puder sentir aquele peito definido de uma pele macia. Os olhares cruzavam-se cheios de desejo e inquietação. Num gesto menos delicado encostou-a contra a mesa do hall de entrada, tirou-lhe as meias de ligas com uma mão apalpou-lhe as longas pernas enquanto com a outra brincava com o erecto e rosado mamilo, virou-a de maneira bruta, a sua respiração ofegante ouvia-se, afastou-lhe as pernas com um pé, sentindo-lhe o cheiro, subiu-lhe a saia e ali mesmo começou a saciar o seu desejo com vigor e ritmo, a mesa arrastava á medida de cada investida que era cada vez mais profunda, os gemidos faziam-se ouvir, estava tudo muito quente e húmido, estava muito perto. Aqueles corpos estavam incendiados de prazer, estavam viciados. As costas de Patrícia arqueavam-se cada vez mais, as mãos de Alex não paravam, uma agarrava-a com força enquanto a outra passeava entre o sítio mais secreto e os seios voluptuosos. Aquele momento era cada vez mais intenso mais agressivo, mais delicioso. Era agora… A campainha de novo fez-se soar, aqueles corpos congelaram no meio daquele incêndio de paixão, mas quem seria? Rápido vestiram-se, para poder abrir aquela maldita porta.

- Quem é?

- Sou eu o Raul!

Continua...

Vai um cafezinho?

sexta-feira, 11 de março de 2011

DOURO Capitulo 5
- Tentaram-me matar!! – Entrava Alexandre desnorteado em casa do seu amigo e advogado Raul.

- O quê? Só podes estar a delirar!! Tens a certeza?

- Eu a delirar?? Esteve um Jipe a perseguir-me a tentar mandar-me para os anjinhos e eu estou a delirar!? Se não acreditas vai ver o meu carro que tem o vidro da frente todo partido e com a porta toda para dentro! – Punha as mãos na cabeça com os olhos bem abertos, ainda atónito.

- Vamos já reportar isso às autoridades.


No meio daquela burocracia toda, Alexandre esquecia do motivo pelo qual tinha saído de casa, só pensava no anterior sucedido que teria vivenciado. Depois da Policia Judiciária de Bragança chegar ao local e analisar o seu carro, o medo começava a apoderar-se dele, isto estava a ir longe de mais. Tudo parecia estar interligado.

- Depois de todas as investigações feitas temos que ir ao tribunal ver se tens direito ou não ao programa de protecção á vítima. – Dizia Raul com uma voz serena para tentar acalmar Alexandre.

- Já podemos ir embora? Estou cansado…

- Podemos sim. Hoje ficas em minha casa!

- Raul?

- Sim?!

- A Patrícia está em Macau. Ela é a chave da minha liberdade.

 
Macau era como um grande jardim no meio de enormes e modernos edifícios, onde templos, igrejas, sés e histórica arquitectura perdiam-se no meio daquele labirinto de betão. Naquela península todas as ruas tinham a sua história, cheia de grandes emoções, de grandes conquistas e de grandes despedidas. Nos jardins verdes e graciosos decorados segundo cultura oriental enchiam-se de gente, ali era um ponto de encontro entre várias culturas e religiões. Os carros ruidosos e multidões ubíquas eram como se fosse a banda sonora daquela antiga colónia portuguesa.

Na longa escadaria Raul perdeu-se de encanto por aquela imponente e magnífica fachada, de estilo barroco ricamente decorada com imagens bíblicas, das Ruínas de São Paulo. Nem mesmo aquele calor abafador o demovia na reverência daquele monumento, agora percebia o porquê de ser considerado uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo.  

- Bom dia! – Uma voz feminina interrompia a sua admiração pelo desconhecido.

- Bom dia. Deve ser a menina…

- Patrícia, só! – Terminou com a cortesia do advogado. – Finalmente o encontrei, estava complicado! – Sorriu!

- Então o que levou a Patrícia vir para Macau tão repentinamente?

- Bem estou a ver que é uma pessoa objectiva e despachada! Vim para aqui, porque o meu irmão vive cá e ele está num hospital em estado crítico. – Levantou o olhar em direcção á santa que estava esculpida na fachada como forma de prece.

- Lamento! – Raul engoliu em seco, não esperava aquilo como resposta pois ele sempre pensou que ela estava envolvida, tudo apontava a isso (o envolvimento espontâneo daquela noite e o seu desaparecimento súbito).

- Bem venha comigo, vamos para o Hotel Lisboa é onde estou hospedada.

Depois de uma caminhada meteram-se num táxi, após de imensas ruas com imensas cores e cheiros, seguiram pela estrada movimentada da Av. do Infante Dom Henrique em que circulavam minúsculos autocarros, motas e grandes carros, até chegarem ao hotel.

- Entre esteja á sua vontade. Como lhe disse no táxi, não posso ir para Portugal com o meu irmão assim. Acho muito estranho o acidente que teve, tenho medo que ele se tenha metido com as ceitas daqui, elas são imensamente perigosas. Ele é polícia, sabe como é!

- Pois entendo, é uma profissão de risco.

- Mas conte-me como está o Alexandre? – A sua pele ganhou cor.

- Está bem dentro do possível, você é a única esperança dele. Sabe… - O telefone acaba por suspender a conversa. – Atenda menina Patrícia.

- Sim sim, só um momento, por favor.

Depois de uma breve conversa ao pousar os auscultadores os olhos de Patrícia começavam a deixar cair as primeiras de muitas lágrimas, a sua jornada por Macau terminara ali.

Continua...

Vai um cafezinho?

terça-feira, 8 de março de 2011


DOURO Capitulo 4
No tribunal de Bragança o silêncio reinava naquela antiga e remodelada sala, a madeira que por ela se espalhava tinha muito que contar. Quantas histórias por ali teriam se ouvido, quantas injustiças teriam sido cometidas e quanta sede de justiça ali teria sido saciada.

Será que desta vez seria ouvida a palavra justiça!? As horas passaram e as coisas pareciam mais sérias do que se pensava, o crime teria sido naquela noite em que Alexandre se perdia naquele voluptuoso corpo daquela mulher misteriosa. Tudo apontava que teria sido uma cilada, as provas iam aparecendo, a insegurança espairecia naquela sala, mas o seu amigo que era um advogado nacionalmente reconhecido pelo seu excelente trabalho, parecia estar a manusear bem aquelas provas incriminatórias e pôr em dúvida tudo aquilo que apontava em direcção a Alexandre. Apresentações periódicas até ao veredicto final, esta foi a decisão quase instantânea do juiz.

- Como te disse as provas são forjadas. Agora temos muito tempo para encontrar o teu álibi, e para provar que não foste tu.

- Se não fosses tu o que seria de mim?


Nunca mais chegava ao hotel, sentia-se observado, vulnerável no meio daquela gente que até agora parecia conhece-la tão bem. Os olhares daquela aldeia cruzavam-se quando ele passava, eram olhares penetrantes capazes de o julgar e pô-lo apodrecer na prisão. Nem um único olhar parecia acreditar na sua inocência. Seria ele mesmo inocente?

- Olá chefinho…

- Olá há alguma carta para mim?

- Há sim, é do estrangeiro e tudo!

- A sério de quem?

- De uma tal de Patrícia Fernandes Caego.

Aquele nome não lhe era nada estranho, seria dela? Por breves instantes acendeu a chama da esperança. Pegou na carta e foi a correr para o seu escritório. Estava ansioso, mal ele sabia porquê, um pequeno sorriso nos lábios esboçou-se. Nem parecia estar a viver o pesadelo em que estava metido.

“ Gostei muito de te conhecer.
Beijos Patrícia “

«Só isto? Mas isto é a gozar com a minha cara? Deixa cá ver o envelope… Macau!»
Aquele turbilhão de sentimentos e pensamentos soltos pararam ao ouvir um irritante e repetitivo som do seu telefone.

- Estou? Quem fala?

Um silêncio permaneceu no outro lado da linha. 

- Estou? Estou? Quem fala?

Uma leve respiração se ouvia, mas não havia resposta de forma alguma, a chamada seria interrompida depois de um riso nervoso.
Alexandre ficou colado ao telefone estupefacto com aquela misteriosa chamada. Já não era a primeira vez que tal acontecia, isto tornava-se rotineiro e cada vez mais perturbador. Depois de aquele emaranhar de pensamentos retornou a si, pegou no casaco preto que deixara no enorme braço da intemporal poltrona e começou a correr em pleno hotel para depressa chegar ao carro. Precisava de falar com o seu advogado, tinha que lhe contar a novidade, ela estava em Macau, ela era testemunha, o seu álibi!

Depois de cinco minutos de tentativas frustradas, o motor não estava a responder, os nervos transpareciam em gestos trémulos a ansiedade começava a responder por ele. Até que decidiu tentar aclamar-se. Saiu do carro para poder espairecer melhor, reparou que o céu tinha tons alaranjados e que nele voava o último bando de andorinhas. O vento acariciava-lhe o rosto, o cheiro da terra persistia e finalmente depois de sentir a natureza tranquilizou-se.
Estava de novo de volta da chave de ignição, o ruído do motor finalmente se fazia ouvir e com um movimento quase que automático pôs aquele carro a andar. A melodia do rádio fazia-lhe companhia ao longo daquela viagem que parecia tão longa, o sol começava a esconder-se por de trás das encantadoras montanhas transmontanas, a pouca luz que se podia observar eram acompanhadas pelas luzes artificiais produzidas pelos faróis do carro. Estava tudo muito calmo, a sua música preferida suava num volume máximo, em breves segundos estava num outro mundo. A sua memória levava-o a percorrer o corpo de Patrícia, um sorriso esboçava-se, até que uma luz forte fez-lhe sair daquele sonho. Os seus olhos ficaram encadeados, não conseguia ver bem a estrada, desviou-se para a outra via para conseguir ver alguma coisa. Um jipe que atrás de si transitava começou a acelerar até ficar ao seu lado. O vidro escuro não permitia que Alexandre visse quem era o condutor maluco, rápido se apercebeu que o jipe tentava bater no seu carro. Aquilo não era normal, o seu pé direito pisou ainda com mais força o pedal do acelerador, quase ao mesmo tempo que a embraiagem e as mudanças eram recrutadas. O jipe não se deixava ficar a trás, os sons dos dois motores fazia-se ouvir, curvas perigosas faziam-se a velocidades que por lei nunca seriam permitidas, aquilo não era lei que estava em causa mas sim a sobrevivência. Aquele carro descontrolado batia-lhe de lado, tentando empurra-lo para as enormes ribanceiras. Aquele momento nunca mais acabava, era interminável! A adrenalina subia lhe nas veias, tinha que fazer algo para acabar com aquele momento, ao olhar mais uma vez para o retrovisor viu uma arma de fogo a sair daquele vidro negro. O carro não estava a responder como ele queria, mas rápido lembrou-se de um atalho em que só um carro pequeno podia passar. As suas unhas cravaram-se no volante com os dentes cerrados e uma gota de suor a cair-lhe sobre o rosto, levou o carro ao seu limite, era tudo ou nada! O jipe começava uma nova investida, o cheiro a gasóleo, abafava o cheiro da terra. A velocidade aumentava cada vez mais, a estrada cada vez mais perigosa, cada vez mais estreita, era curva contra curva! A experiência de Alex por aquelas terras começava a ser uma vantagem, o som da pedra a rasgar o metal começava se a escutar, era o seu carro a raspar nas grandes fragas da encosta empurrado pelo jipe desvairado. Ao olhar para o lado viu uma luva negra a tentar pressionar o gatilho de uma Glock, nesse preciso momento Alex chegava ao atalho. Mais uma vez o jogo de mudanças, de embraiagens e de aceleradores começava. Um caminho estreito de terra batida era limitado pelas pequenas casinhas de xisto. Aquele carro vermelho ficava para trás, enquanto ele acelerava o mais possível fez-se suar um estrondo, ao mesmo tempo que uma bala de 9 mm perfurava o seu vidro. Aquilo nunca mais acabava, o final daquele estreito caminho chegava ao fim e com ele o sossego.

Continua...