Vai um cafezinho?

sábado, 11 de agosto de 2018

Estremecer  - Parte 1
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«Foi aquele maldito olhar que me fez estremecer, que fez com que todo o meu mundo condensasse apenas em ti. Terminaste com a minha paz, estava tão bem sozinho. Cerrei os meus punhos com tanta força quando te vi, que as minhas unhas quase que entravam na minha carne, tal como o teu olhar entrou no meu íntimo.
As minhas forças esgotaram-se e cedi, mais uma vez cedi. Só te queria a ti nos meus braços, sentir a tua pele, sentir o teu cheiro. Carnal, tu és tão carnal. Esse teu jeito inocente é uma verdadeira maldição, hipnotiza-me, enlouquece-me, cega-me.
Demovido pelo teu feitiço comecei a caminhar em tua direcção, o meu coração parecia não caber mais no meu peito, geraste em mim uma tempestade que ironicamente só tu a podias travar.»
- Matias! – Soou uma voz doce – O que fazes aqui?
- Vim ao teu casamento, não viste a minha confirmação? – Retorquiu de forma cáustica. – Já te disse que estás linda com esse vestido? – Perguntou com mágoa e ansiedade.
Mariana com as suas mãos delicadas segurou o seu vestido preenchido de renda e deu uma volta, exuberando assim cada curva do seu corpo.
- Gostas? – Murmurou de forma provocativa, ao mesmo tempo que segurava uma madeixa do seu cabelo rebelde.
Matias não conteve mais a sua vontade primitiva, segurou-a pelo punho e levou-a longe daquele maldito salão. Estava escuro lá fora, a brisa estava fria, ninguém se atrevia a ir para aquele jardim, excepto aqueles dois. Era agora que ele ia saciar a sua vontade, era agora que ia consumir aquele desejo. Só via a ela, apenas a ela. Ao passearem pelos altos arbustos a ânsia era quase que palpável, as respirações ofegantes era a única coisa que se ouvia naquela escuridão. As passadas eram cada vez maiores, tinham que ir para bem longe para ninguém os ver.
Mariana tentava acompanhar o seu amante, mas algo intrometeu-se na sua passada, algo estranho acabando por se desequilibrar. Caiu.
- Mariana, estás bem? – Perguntou Matias aflito.
- Acho que perdi o meu brinco. Tens o telemóvel aí contigo?
- Sim tenho. - Tirou o telemóvel prontamente para iluminar o solo.
Uma luz, um grito.

Continua...

Aurélio e o seu mundo...

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Isto de criar um puto não é nada fácil, grandes olheiras, que nem com a maquilhagem da minha mulher disfarça (mas não digam a ela que uso aquilo, ainda pensa que sou menos macho). Até que num dia de desespero decidi candidatar-me para aquele programa das camarazinhas, ali ganha-se dinheiro e não se fazia nada (e assim livrava-me da carraça da minha sogra)! Fui passando nos castings, quando estávamos reduzidos a 50 candidatos eles lá se lembraram de testar o nosso QI, ora eu ainda tentei armar-me em grande armário (apesar de parecer com uma mesinha de cabeceira ao lado dos outros), mas nada feito nem os balões que pus na camisola disfarçou! Não passei, não foi por causa dos balões, foi mesmo porque tenho o Qi elevado para o programa, mas depois penso como seria a minha estadia na casa sem as minhas gomas!

Mas hoje senti-me um pai orgulhoso (até me vieram as lágrimas aos olhos mas não digam a ninguém, pode não parecer devido ao meu enorme charme mas no fundo sou um homem sensível). Estávamos todos na sala enquanto davam aqueles programas na televisão que deixam qualquer um aborrecido (pelo menos a mim porque a minha carraça de estimação [minha sogra] estava toda entusiasmada ao ver o Goucha, “ai que homem tão bonito” dizia ela, acho que ela ainda não percebeu que ela não faz o género dele) quando de repente ouço um grunhido vindo do puto!

- Queres ver que finalmente o puto já vai falar?

- Não sejas tonto amor o muito que ele pode dizer é mamã! – Olhou-me com um olhar felino (assustador também).

- Era o que mais me faltava! O que ele vai dizer é papá ou Benfica! – Ripostei logo com coragem, sim com coragem que ela desde que pariu o puto tem estado muito agressiva.

- Não sejam idiotas! O meu netinho vai dizer vovó… - intrometeu-se a bruxa da minha sogra enquanto ela fazia uma festa á criança. Um silêncio estabeleceu-se com a ânsia naquela sala quando quebrado por uma vozinha (que até achei amorosa, vá).

- Quêo gomas!

E assim foi a confirmação que afinal ele é sempre meu filho, não há testes de ADN que confirmem isto com tanta precisão.

Vai um cafezinho?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

As ondas batiam nos grandiosos rochedos de uma praia deserta, o vento assobiava ao ritmo da força da água salgada. A areia cor de ouro bailava no ar ziguezagueando de maneira delicada, como de um baile se tratasse, acariciando as penas das resistentes gaivotas que por lá pousavam.
Olhos cor de terra faziam cair uma lágrima acabando por se perder na imensidão de partículas de água, o desespero fazia-se sentir, as pernas esguias e trémulas combatiam contra as fortes e teimosias ondas, o medo da incerteza espalhava-se por todo aquele ser.

- Beatriz! Não! – Uma voz autoritária tentava impedir aquele inconsciente e perigoso acto. 

– Sai daí filha!

- Não saio, a minha vida acabou… – Respondia uma desesperada voz acabando por ser interrompida por uma enorme e violenta onda.

O seu corpo frágil não conseguiu resistir contra a gigantesca onda fazendo com que ela ficasse agarrada nos enormes braços da corrente, agarravam-na com uma tremenda força, espremendo todo o seu oxigénio. As últimas bolhas de oxigénio espalhavam-se á sua volta, tudo o que ela via era a envolvência do azul e do castanho e pouco a pouco, dentro do seu limitado campo de visão, começava a ver uma sombra ao mesmo tempo que cada extremidade do seu corpo deixava de se sentir, o seu coração rendia-se rapidamente sendo este o ultimo som que registava aquele momento que dominava todo o seu ser.



Forte era a pressão que se impunha sobre aquele pequeno tórax, uma batida cardíaca começou por despertar todo um mecanismo, fazia-se sentir em todo o seu corpo e com ela uma lufada de oxigénio. Uma força inacreditável despertava aqueles olhos cor de terra e com ela trazia a sede, a sede de viver.
Tudo á sua volta era confuso, estava no seu quarto, na sua cama nos seus lençóis sendo uma voz rouca e familiar a trazer-lhe de volta.

- Então amor? O que se passa? Tiveste outro pesadelo foi?

- Parece que sim… - Soava uma voz ofegante. 

- Já passou minha querida. Pronto, tem calma. – Grandes braços a envolviam acalmando e tranquilizando aquele pequeno coração. – Tenta dormir de novo ainda é cedo.

Mais serena Beatriz volta a fechar os olhos mas um barulho repetitivo e irritante interrompe aquele curto momento de paz e serenidade. 

- Estou? Quem fala?

- Filha é a mãe! – Respondia uma voz trémula e padecida.

- O que se passa mãe? – As suas cordas vocais manifestavam ansiedade.

- A tua irmã matou-se! – Um choro transparecia-se pela respiração ofegante. 

Beatriz não podia acreditar naquelas palavras, as lágrimas cristalinas caiam-lhe pelo rosto delicado. Não podia ser.

- Mas como mãe? Porquê?

- Eu tentei salva-la filha juro que tentei, mas aquela maldita onda a engoliu.

FIM

Baia De Cascais

quarta-feira, 29 de junho de 2011

- A minha vida é um horror! Estou tão deprimida.
- Querida não diga isso, podíamos estar muito pior.
- Estar muito pior como, diga-me lá? Estou extenuada!
- Ai sim? Então o que andou a fazer?
- O que eu andei a fazer? José Maria… Estive à procura de trabalho, como é óbvio.
- Oh estou tão orgulhoso de si, sabe!
- Ai as minhas ricas mãos, tenho que marcar já a manicure. Estar aqui a fazer bolinhas no jornal a ver se encontrava alguma coisa, é uma canseira, sabe?! Se trabalhar é isto então não me aguento! 
- Querida esqueça isso!
- Então porquê? 
- Porque é mais fácil contratar o pituxas do que a si!